PLANETA PROIBIDO

Renato Rosatti

Produzido em 1956, durante a década de ouro do cinema fantástico, e considerado um clássico absoluto da Ficção Científica, Planeta Proibido (Forbidden Planet) deve ser homenageado e reverenciado sempre. O filme assinalou um marco histórico no cinema do gênero, com produção da Metro Goldwyn Mayer (MGM) e apresentou um roteiro original que oferecia um futuro onde a humanidade se aventura na vastidão do Universo através de naves espaciais que viajam com velocidades superiores a da luz. Apesar de um tema já largamente utilizado na literatura há mais de vinte anos antes, o assunto era ainda um pouco inexplorado pelo cinema conservador, que continuava estacionado em aventuras não muito distantes de nosso planeta, preferindo os nossos vizinhos Lua e Marte.
A história, de autoria de Irving Block e Allen Adler, é fortemente inspirada no drama A Tempestade, de William Shakespeare.

Nele, uma embarcação encalha numa ilha encantada (no filme, o cruzador interplanetário C-57D aterrisa no planeta Altair IV). Nessa ilha, um mago chamado Prospero vivia com sua filha Miranda e a criada Ariel (no filme, o filólogo Dr. Morbius com sua filha Altaira e o ajudante Robby, um robô especial). No drama de Shakespeare havia ainda o escravo de Prospero, Caliban, que no filme corresponderia ao invisível “Monstro do Id”.

O roteiro ficou a cargo de Cyril Hume, que havia trabalhado em filmes do personagem “Tarzan”; a direção foi de Fred McLeod Wilcox, um aficcionado por astronomia e que havia consultado cientistas e centros de engenharia e astronáutica por três meses; e a produção ficou por conta de Nicholas Nayfack.

O filme começa com a chegada do cruzador C-57D ao planeta Altair IV, a serviço dos “Planetas Unidos”, com o objetivo de resgatar um grupo de cientistas colonizadores que lá haviam aterrissado vinte anos antes com a nave espacial Belerofonte, e que nunca haviam dado notícias à Terra. São então estranhamente recebidos com insatisfação pelo Dr. Edward Morbius (Walter Pidgeon) e sua filha Alta (Anne Francis), os únicos seres humanos ainda vivos, e que eram auxiliados pelo fantástico robô Robby, um dos mais famosos robôs do cinema, juntamente com o clone de Maria de Metrópolis (1926), o imponente Gort de O Dia em que a Terra Parou (1951) e o cômico robô da série de TV Perdidos no Espaço (1965-68).
O Dr. Morbius informa então ao Comandante da expedição terráquea, J. J. Adams (Leslie Nielsen), que os outros exploradores da Belerofonte haviam morrido tragicamente devido à uma força invisível e misteriosa, e que somente ele e sua filha eram imunes a essa força. Com a inexplicável insistência do Dr. Morbius em não deixar o planeta e requerer a retirada da expedição recém chegada, além da morte súbita e violenta de um dos oficiais com causas desconhecidas, o Comandante Adams decide ficar e investigar melhor o planeta proibido.
Ele então descobre os segredos de uma antiga e super desenvolvida civilização, os Krell, que vivia em Altair IV num passado muito longínquo. Essa raça conseguiu desenvolver um incomensurável poder mental que eliminou a fome, dor, medos e guerras, mas que inevitavelmente os levou também à extinção. Com o desejo do Dr. Morbius em permanecer no planeta estudando a incrível tecnologia Krell, ele torna-se inconscientemente o responsável pelo surgimento do “Monstro do Id”, uma força invisível e destruidora que é uma projeção dos medos e sentimentos negativos do cientista, que se manifestam numa parte desconhecida do subconsciente de sua mente. Essa força terrível foi a causadora das mortes de seus companheiros anos antes e agora é a fonte ameaçadora dos novos visitantes.

Mas, como sempre, um final feliz e inevitável reserva a fuga intacta do cruzador de Altair IV, com o Comandante Adams levando a jovem e belíssima Altaira, principiando um previsível romance, e deixando o Dr. Morbius no planeta, que explode junto com todo o conhecimento Krell e o “Monstro do Id”.

Sobre os atores principais: Walter Pidgeon (Dr. Morbius) foi o Almirante Nelson do filme Viagem ao Fundo do Mar (1961), que originou a série homônima da televisão poucos anos depois, com criação do lendário produtor Irwin Allen. Leslie Nielsen (Comandante Adams) é hoje bastante conhecido por seus filmes de comédia como a série Corra que a Polícia vem aí (1988).

Anne Francis (Altaira) estrelou vários episódios de séries de TV como Além da Imaginação e Os Invasores.
Quanto aos atores coadjuvantes: Warren Stevens (Tenente Doc Ostrow), que morre no filme ao tentar utilizar um aparelho mental dos alienígenas Krell, participou de inúmeras séries de TV dos anos 1960, sendo um rosto bastante conhecido por Jornada nas Estrelas, Viagem ao Fundo do Mar, Perdidos no Espaço e Terra de Gigantes. Richard Anderson (Chefe Quinn), que também morre no filme sendo o primeiro oficial assassinado pelo “Monstro do Id”, foi o memorável Oscar Goldman da série de TV Cyborgue, o Homem de Seis Milhões de Dólares, além de participar também de outras nostálgicas séries como Os Invasores e O Fugitivo. Earl Holliman (o cozinheiro), que fez o papel cômico do filme, estrelou o episódio piloto de Além da Imaginação, “Onde Estão Todos?”, de 1959, além também de ser um marinheiro no elenco fixo da série Viagem ao Fundo do Mar.
 O robô Robby representava a síntese harmoniosa entre o progresso científico e o bem social. Cordial, ele tinha em seu programa as famosas três leis da robótica, criadas pelo escritor Isaac Asimov, e sua diretriz principal era a preservação e proteção da vida humana. 

Manipulado por um ator de baixa estatura que tinha que suportar os 32 quilos da roupagem do robô, a maior parte deles concentrados na cabeça, Robby tornou-se uma celebridade e foi requisitado para atuar em outro filme da MGM, The Invisible Boy (1957), que infelizmente não teve sucesso e o robô foi então encostado nos estúdios, vindo somente a participar como convidado de algumas séries de televisão como Perdidos no Espaço, Além da Imaginação e A Família Addams.
O cruzador interplanetário C-57D é uma das naves espaciais mais tradicionais do cinema, com seu formato típico de disco-voador. A cena em que se aproxima da superfície de Altair IV e aterriza lentamente no deserto do planeta é simplesmente antológica, num dos momentos mais memoráveis da história do cinema de Ficção Científica. 

A nave participou também de três episódios de Além da Imaginação, um deles escrito por Richard Matheson, A Nave da Morte, um dos melhores de toda a série e com a participação do ator Ross Martin (o Artemus Gordon da série de TV de western James West).

Os efeitos especiais e cenários do filme são fantásticos. Desde o deserto com céu colorido e duas luas, passando pela casa futurista do Dr. Morbius, até a impressionante cidade subterrânea dos Krell, repleta de imensos controles com luzes piscando e enormes alavancas de acionamento, elementos típicos e sempre presentes nas produções de ficção científica antigas.

Para a realização dos efeitos do terrível “Monstro do Id”, foram utilizados os serviços dos estúdios Walt Disney, sob o comando de Joshua Meador, mestre na tecnologia de animação. Um dos pontos fortes da trama era a invisibilidade do monstro, onde apareciam apenas suas pegadas na areia do deserto próximo à nave. A criatura, uma massa que se arrastava, sendo o equivalente físico dos estímulos primários deformados pelo subconsciente do Dr. Morbius, teve uma rápida materialização óptica quando entrou em contato com o campo de força do cruzador terrestre, e sua forma se assemelhava a uma enorme fera que rugia de forma ameaçadora, talvez até pudesse ser uma referência ao famoso leão Leo, símbolo da produtora MGM. A equipe de efeitos de animação precisou de mais de seis meses para concluir o seu trabalho no filme.

A música eletrônica da trilha sonora é obra de Louis e Bebe Barron, e representou uma revolução na orquestração dos filmes de ficção científica. E juntamente com as músicas de Bernard Herrmann, foram as composições mais originais do gênero.
Planeta Proibido foi concluído em quinze meses e o orçamento girou em torno de 1 a 2 milhões de dólares, uma quantia considerada alta para a MGM na época, pois seu filme mais caro até então tinha sido Quo Vadis (1951), com US$ 5 milhões. É interessante notar que com o passar dos anos, esse conceito de valores de orçamento para a produção de um filme mudou completamente, pois existem atores atualmente que ganham bem mais do que isso somente para atuarem em determinados filmes.
Na época, o filme concorreu ao cobiçado prêmio “Oscar” na categoria de efeitos especiais, mas o vencedor acabou sendo a super produção Os Dez Mandamentos.

Planeta Proibido é um dos maiores filmes de Ficção Científica de todos os tempos, geralmente presente em qualquer lista das dez produções mais significativas no gênero. E sempre que possível devemos relembrar sua importância aos que já o conhecem, ou apresentar aos que ainda o desconhecem. O filme está disponível no mercado brasileiro de vídeo VHS, e a televisão aberta costuma reprisá-lo em cópia dublada com certa regularidade. Portanto, utilizando um pequeno trocadilho, “proibido” é não conhecer Planeta Proibido.


FORBIDDEN PLANET COMPARISON TO

SHAKESPEARE'S THE TEMPEST

This essay gives special attention to technology's role in society, as viewed both by Shakespeare and in Forbidden Planet

On first glance, Forbidden Planet can easily be seen to parallel many other works relating to technology, nature, or both. One of the most obvious parallels is, of course, to Shakespeare’s The Tempest, the story of a man stranded on an island which he has single-handedly brought under his control through the use of magic. Indeed, the characters, plot, and lesson of Forbidden Planet mirror almost exactly those of The Tempest, with the exception that where The Tempest employs magic, Forbidden Planet utilizes technology. At this point, it is useful to recall one of Arthur C. Clarke’s more famous ideas, which is that any technology, when sufficiently advanced, is indistinguishable from magic. Indeed, the technology presented in Forbidden Planet is not meant to be understood by the audience, but rather is, for all intents and purposes, magic. This is undoubtedly in part because the technology doesn’t exist and therefore cannot be explained to us. What is more important, however, is that how the technology works is irrelevant for the purpose of the movie, which is to entertain and to teach us a lesson about man’s control over the elements and over his own technological creations.

At this point a brief synopsis of the movie would seem to be in order, with special attention as to how it relates to The Tempest.

In The Tempest, a man named Prospero and his daughter Miranda have been exiled to a remote island which is completely uninhabited, save for an evil monster and her son Caliban, and which is in a state of primal chaos. Using the magical powers he has cultivated all his life, Prospero gradually brings the forces of nature on the island under his control, and manages to somehow enslave Caliban, whose mother has died in the interim. (Some of these details are fuzzy because I am familiar with The Tempest only through Marx). A group of sailors is shipwrecked on the island, one of whom falls in love with Miranda, the lovely daughter of Prospero. Eventually, Caliban and other servants plot to overthrow Prospero, but are thwarted and taken back into servitude, thankful to get off that easily.

Having summarized The Tempest, it is easy to summarize Forbidden Planet. A man named Dr. Morbius and his daughter Altaira are stranded on a distant planet when a government ship lands there, whose commander falls in love with the beautiful Altaira. The only significant difference in the two works, other then setting, is the conclusion of each. Before we look at the differences there, however, it is necessary to look more closely at the symbolism behind each. In The Tempest, Prospero’s magic is a symbol of technology. It lets him tame the island, is completely at his command, and even is understandable by those who take the time to study it. Caliban represents the forces of nature, which Prospero has enslaved using magic, a.k.a. technology. It is worth noting here that Shakespeare perceives “nature” in the form of a wild, hostile environment, not as a “garden of eden” form, a concept he pokes fun at in one of the opening scenes. Eventually, nature rises up and lashes out at Prospero, but (from what one can gather from Marx), his magic saves him. He then accepts Caliban back into servitude. The perfect harmony is thus achieved--man using technology to tame nature, and doing it so well that he achieves the best of both worlds.

Forbidden Planet teaches a different lesson, and teaches it in two separate stories. The first is the story of the Krell, a superintelligent race that rose to its peak and then fell 2000 centuries before Dr. Morbius and his daughter set foot on the planet. The Krell had achieved what they considered to be the pinnacle of technology--they had left behind their physical bodies in exchange for computers. Their consciousness resided in computers, which “projected” bodies for them, so to speak. The perfect blending of man (or creature, anyway) and technology. They were, in fact, a version of Hardison’s “silicon creature”--they had no physical bodies, save for a series of ones and zeros stored somewhere in the memory of a supercomputer 40 miles long. What the Krell had forgotten to explore, however, was their own psyche. Confronted with the virtually limitless power they had due to the nature of what they had become, all they did was loot, riot, and otherwise engage in self-destructive activity, so that in one day the entire race was destroyed. In this case, technology in the form of the Krell’s supercomputer became a slave to the most basic form of nature--the subconscious, where primal emotions rage with all the fury of a physical tempest. As we see, the results when nature controls technology are disastrous.

The second story is the story of Dr. Morbius. At the outset, Altaira IV could easily be mistaken for paradise, albeit an arid and lonely one. While the area that the ship is in is a desert like climate, the dwelling place of Morbius and Alta seems climactic enough. Deer frolick in the nearby forest, and tigers which are normally fearsome killers are petted like kitty cats. It is the tiger which is the first clue that things are going wrong. An obvious symbol of nature, a tiger attacks Alta one day while Commander Adams is there. Adams quickly uses his blaster on the tiger, symbolizing the utter dominance of technology over nature on Altaira IV. Shortly afterwards, things start getting worse, and culminate in a fearsome attack by “nature” in the form of Morbius’s subconscious on Adams’s ship. As the plot unfolds, we find out that Dr. Morbius, by meddling with technology he didn’t fully understand, managed to inadvertently kill dozens of people. It is worth noting that Morbius realizes on some level the extent to which things have gotten out of hand when his daughter pleads with him to help the crew of the ship. His reply to her is along the lines of “I cannot help him (Commander Adams) as long as he stays so willfully”. In short what Morbius is saying is strongly reminiscient of Frankenstein’s message, that is, “This technology that I am supposedly ‘master’ of has gotten out of my control, and I am powerless to stop it”. Dr. Morbius is a grim reminder again of what can happen when technology is allowed to increase unchecked, to the point where human beings can no longer understand it, let alone control it. Ironically, Dr. Morbius himself warned against the unchecked growth of technology by refusing to allow mankind access to the Krell’s wondrous secrets. Instead, he insisted that he would dispense what pearls of wisdom he saw fit, the better to keep mankind from destroying itself. In the end, of course, the entire planet was destroyed, along with several neighboring star systems.

There are several lessons to be learned from Forbidden Planet. The first is that before man can hope to control nature or technology, he needs to learn to control himself, as evidenced by the disaster which destroyed the Krell. Second, when technology and nature are in direct conflict, the results will not be beneficial, and will probably be destructive. Third, when technology and nature are too far off balance from each other, the results will again be detrimental.

In short, Forbidden Planet is a kind of Frankenstein which is more developed and has better symbolism, which is to say that it councils the same course of action that Florman does--caution, but not inaction. If we allow nature to run rampant, we clearly cannot survive. (This statement again takes the assumption that “nature” is a tempest, not a garden of eden.) If we allow technology to go unchecked, it will eventually overwhelm us when we least expect it. And if we pit the two against each other, it will destroy our entire solar system. The proper course of action, then, is just what both Florman and Morbius propose--proceed slowly, and take into account the fact that all that is new is not necessarily good.