De Isaac Asimov a Shakespeare

A Ficção Científica é, talvez, o gênero literário mais injustiçado na história da literatura.

Ela tem uma característica que a torna incompreensível para a maioria dos críticos literários: a CIÊNCIA é um de seus principais personagens!

Como os críticos, na maioria dos casos, têm formação limitada (só humanística) não têm condições de apreciar a verdadeira poesia que se esconde sob uma narrativa aparentemente banal.

Como disse certa vez Orson Scott Card

(premiadíssimo autor de livros e peças teatrais) por ocasião da visita que ele fez ao Brasil: 

-- Se treinarmos um mecânico para desmontar peças que só têm parafusos de cabeça sextavada, 

quando ele se defrontar com um parafuso de cabeça redonda

ele jamais vai admitir seu despreparo! Vai olhar o parafuso de cabeça redonda com desprezo e vai afirmar: "Isso não é um parafuso!"

-- Da mesma forma -- continua Card -- se treinarmos um crítico literário para desmontar e analisar textos da chamada literatura tradicional, ao se defrontar com um livro de ficção científica ele afirmará, com desprezo: "Isso não é literatura!"

Uma das obras primas de Arthur C. Clarke, por exemplo, é o "Encontro com Rama", um livro maravilhoso sobre a abordagem, por parte de astronautas terrestres, de uma gigantesca nave estelar alienígena.

Apesar de ser considerada uma obra prima, foram escritas críticas negativas pois "os personagens são caracterizados de forma muito superficial".

Ora, o personagem principal não é o capitão da nave terrestre... é a Força de Coriolis!

Ora, um crítico que não tem a menor idéia do que causa a rotação de um furacão, vai passar batido pela poesia oculta atrás das descrições de Clarke.

No prefácio de uma antologia de contos de FC, o próprio Clarke certa vez escreveu:

"Antigamente achava que a FC era o gênero literário que servia de ponte entre o conhecimento humanístico (por se tratar de arte, literatura) e o científico. Hoje já penso de forma diferente. Não existem duas culturas que exijam uma ponte para uni-las: a cultura é uma só e quem domina só metade dela não pode ser considerado uma pessoa culta. Alguém que sabe tudo sobre Shakespeare e não tem a mais pálida idéia do que trata o Segundo Princípio da Termodinãmica é tão ignorante quanto outro que sabe tudo de mecânica Quântica e acha que foi Van Gogh quem pintou a Capella Sistina!"

Após essa declaração é óbvio que a FC é o gênero literário que mais se presta a atividades interdisciplinares. E, ainda, tem uma vantagem adicional: como o incrível desenvolvimento da computação gráfica permitiu banalizar os chamados "efeitos especiais", a indústria cinematográfica descobriu (ou redescobriu pois o primeiro filme da história do cinema foi baseado na Viagem da Terra à Lua de J. Verne) o riquíssimo filão da FC acumulado ao longo de pelo menos um século pelas mais brilhantes e criativas mentes da literatura. 

Só para citarmos um exemplo, a obra de um gênio alucinado chamado Philip K. Dick :

Além dos filmes cujo roteiro foi baseado em obras dele, como o cult movie Blade Runner, Total Recall, Minority Report e Paycheck...

... uma enormidade de outros filmes contêm idéias concebidas em outras obras (Truman Show, Matrix etc).

Infelizmente, ao conceber um filme, o produtor deve pensar em ganhar dinheiro. Como disse o dono do Circo Barnum:

 "Ninguém jamais deixou de ganhar muito dinheiro apostando na estupidez humana".

P.T. Barnum famously declared that no-one ever lost money underestimating the intelligence of the American public. That same observation applies equally to the world at large, with the result that those motivated by money and temporal power focus their efforts on the lowest common denominator. This doesn’t leave much over for those who would prefer something more challenging than a night out at "Jurassic Park" followed by a Big Mac. (Christopher J. Coulson)

Por isso o filme normalmente é uma pálida imitação, se não um resumo mutilante, da obra literária. Até os estúpidos devem poder entender!

Um dos livros mais comoventes da ficção de Isaac Asimov, Eu Robô (que muita gente acha ser a biografia de um ladrão alemão)

foi mutilado e distorcido pelo cinema (mas é sucesso de bilheteria pois nele o ator Will Smith aparece nu!):

Por outro lado existem alguns filmes que não só se mantiveram fieis ao original como contribuíram para divulgar a obra. Um dos exemplos clássicos é Forbidden Planet (Planeta Proibido) baseado n'A TEMPESTADE de Shakespeare e que deu origem a um filme antológico:

Aliás, por ser um gênero predominantemente anglo-americano muito da FC faz referências à obra de Shakespeare, a ponto do próprio Asimov se tornar um dos divulgadores de sua obra:

Finalmente um dos monstros profetizados pela FC em 1984 de Orwell e Farenheit 451 de Bradbury tomou o poder: a TV!

Há uns 40 anos houve uma tentativa de fazer da TV um veículo de transmissão de inteligência. Que fracasso!

O próprio Planeta Proibido serviu como inspiração para dois seriados da TV da época. A nave espacial dos "Planetas Unidos" inspirou Rodenberry em seu famoso seriado Star Trek

e a família isolada com a companhia de um robô acabou gerando Perdidos no Espaço.

Como o intercomunicador usado pelo capitão Kirk e o celular Star Tak da Motorola, quase meio século depois, funcionam de maneira análoga, atribui-se à FC uma espeécie de função profética, a ponto dela ser chamada de Literatura de Antecipação.

Isso pode ser verídico em alguns casos mas é interessante notar que na maioria das v~ezes ela não prevê o futuro... ELA CRIA O FUTURO!

Os próprios engenheiros da Motorola confessam-se fãs do seriado e admitem ter criado o Star Tak (e não Star Trek pois a paramount não abriu mão do CpopyRight) para realizar a proposta do intercomunicador da Enterprise!

O próprio logo da Motorola é inspirado no de Star Trek: